O livro passarinho

É verdade que os livros podem te levar para muito longe, para novos mundos, novas realidades, novos conhecimentos e novas perspectivas, mas também é verdade que nenhum livro merece passar a vida inteirinha dentro de uma biblioteca empoeirada sem uma alma viva (ou não tão viva assim) que o leia.


Pensando dessa forma, cem livros da biblioteca encantada de Agamenon Libério decidiram se rebelar e fazer a revolução acontecer.



Ilustração Kestutis Kasparavicius


Tudo começou com um exemplar surrado de Memórias Póstumas de Brás Cubas, quando resolveu cair de sua prateleira e estatelou-se no chão; Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, foi o próximo a se rebelar e foi seguido por Pinoccio, de Carlo Collodi, pelos Contos dos irmãos Grimm e o Príncipe Feliz, de Oscar Wilde.


Ao passo em que os livros foram se rebelando e caindo de suas prateleiras, uma poeira dourada tomou conta dos vastos salões da biblioteca de Agamenon Libério. Eles estavam se debatendo no chão e, com esse pó, passaram a flutuar a poucos centímetros acima do solo. Outros tantos livros seguiram exemplo e foram voando por cima das mesas cheias de teias de aranhas e cobertas por memórias seculares.


Uma revoada de livros livres saiu rasgando o céu e berrando trechos marcantes de suas histórias, e isso encheu os céus do Brasil de vozes, cânticos e palavras difíceis de pronunciar, nascendo, assim, os livros-passarinho.


Agora, é necessário saltar 100 anos no tempo (não tentem utilizar quaisquer meios de viagem temporal sem um adulto responsável supervisionando, nem mesmo o engenhoso apito-mata-hora)...



Lilica brincava com sua boneca enfeitiçada, Sasha, e com seu amiguinho amarelo de um olho só, Uoli, quando escutou um bater de asas no parapeito de pedra da janela. A menina observou, desacreditada, um grande livro marrom com capa de couro e páginas amareladas. Ele se deixou ler, e ela enxergou grandes mundos, terras distantes, torres de mármore e seres elementais.


O livro-passarinho se afeiçoou à Lilica e deixou-se abraçar por ela, e lhe contou que viajava pelo mundo coletando histórias, cores e sons e poderia sempre voltar para contar à menina o que aprendera pelo mundo.


O livro-passarinho ia e vinha, e deixava o mundo de Lilica muito mais colorido, mas a menina sentia saudade, muita saudade de seu amigo livro. Um dia, após o retorno dele de um lugar chamado Semântia, Lilica aproveitou a distração do livro-passarinho, que contava sobre as flores comestíveis, e o aprisionou em um baú, para que o amigo jamais saísse de sua vista e do alcance de seus abraços.


Dias se passaram e Lilica foi buscar seu lindo amigo livro para que ele lhe contasse algumas histórias de outros mundos, mas ele estava velho, feio, cinza, murcho, tristonho e adormecido. Lilica sacudiu o livro-passarinho e ele acordou e contou à menina que a maior beleza da partida é o retorno. Explicou que sentir saudade faz parte do amor e que ele só partia para que pudesse voltar e contar novas histórias à sua amiga.


A menina entendeu de imediato e liberou o livro, que farfalhou as páginas em seu nariz e voou janela afora em busca de novos mundos, novas histórias, aventuras e um bom novo motivo para voltar.

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