O Anhangá

De longe, no meio da mata, podia-se ver olhos alaranjados tremeluzindo e uma aura branca de passos lentos e, acima dos olhos flamejantes, notava-se o brilho dos grandes chifres dourados do Anhangá, um espírito maligno que atormentava os povos originais das atuais terras brasileiras e tirava o pouco de paz que restava àqueles que tinham perdido seus entes queridos. Mas a lenda é só uma lenda...





Mara e Taynara eram as duas filhas mais velhas de um velhíssimo senhor indígena remanescente da linhagem dos Tupinambás. Piatã criara suas filhas com mãos de ferro, ou como elas costumavam dizer, com pés firmes feito pedra.


A família era grande e os filhos e as filhas mais novos(as), que somavam outras 7 pessoas, já haviam tomado rumo próprio construindo suas próprias famílias e afastando-se da casa do pai. Mas, as duas filhas mais velhas permaneceram no lar, cuidando do pai viúvo, da casa grande e da fazenda cercada de bichos e de mata selvagem. Mara era dois anos mais velha e costumava ter o temperamento mais arredio e até mesmo rude, sendo conhecida como “vara de aço” por ser muito magra, alta e ríspida; já Taynara era uma estrela, muito meiga e carinhosa, sempre pronta para ajudar e sempre disposta a escutar os problemas de quem quer que fosse, por isso costumavam chamá-la “luz”. Um outro membro dessa família, esquecido propositalmente até esse momento em nossa história, era o cachorro Jaboatão, um cão preto magricela, de semblante muito tristonho e sempre morto de fome. Jaboatão era o companheiro inseparável de Piatã Pé de Pedra, e ficava sempre enroscado nos calcanhares do velho e nunca latia para não incomodar, mas estava sempre lá com seus tristes olhos atentos.


Era tradição que, em todo mês de novembro, a família todinha se reunisse na casa de Piatã para comemorar o aniversário do patriarca, e, nesse ano, seria o seu 99º aniversário. Os parentes já estavam a caminho das terras do pai quando receberam mensagens de Mara informando aos prantos que Piatã estava de cama, já fraco e sem grandes esperanças de recuperação. Jaboatão dormia tranquilamente ao lado da cama há dois dias, não saia pra comer ou beber água.


No vigésimo dia de novembro, os filhos de Piatã chegaram com seus próprios filhos, esposas e maridos, mas não para comemorar. Dessa vez, foi para se despedir, depois de uma longa e corajosa vida, Piatã havia partido.


O costume de seu povo dizia que uma grande fogueira devia ser criada no meio de um vasto terreno, isso faria com que os maus espíritos se afastassem com medo do fogo e atraía os bons espíritos para que pudessem guiar a alma recém-desencarnada ao próximo nível da vida. E, assim, uma grande fogueira foi criada e as cinzas de Piatã foram colocadas num belíssimo vaso de jacarandá ao lado das chamas e deram início aos cânticos e aos rituais de viagem do espírito, com todos os descendentes reunidos ao redor do fogo dizendo suas palavras de adeus. O cachorro Jaboatão estava estranhamente inquieto, passeava em velocidade de trote ao redor da grande fogueira e parava vez ou outra para lamber o vaso onde encontrava-se o pó do que restara de seu velho dono.


Uma discussão teve início entre Mara e Taynara sobre o que fazer com as cinzas; a filha mais velha queria jogá-las no fogo para que fossem purificadas com as chamas e facilitassem a entrada do pai no pós-vida, já Taynara desejava guardar a última lembrança que tinha de seu querido pai, mas nem o barulho da madeira em chamas nem as vozes altas das moças puderam distrair o restante dos participantes de um som muito mais baixo e ainda assim mais chamativo, o bater de patas de alguma criatura em meio as árvores.


De longe, no meio da mata, podia-se ver olhos alaranjados tremeluzindo e uma aura branca de passos lentos e, acima dos olhos flamejantes, notava-se o brilho dos grandes chifres dourados do Anhangá. Piatã creu a vida toda que o espírito do Anhangá era o último mensageiro de qualquer pessoa encantada (termo que passou a designar os nove povos possuidores de magia dentre as comunidades originárias que existiam antes do Brasil), o último guia de uma vida de viagens.


A família de Piatã observou, estarrecida, a chegada daquele grande veado branco de olhos em chamas e chifres dourados, com as patas manchadas de argila vermelha e o focinho brilhando com a poeira das caiporas que viviam naquela floresta. Todos os sons ao redor cessaram e era possível apenas escutar o barulho do carvão estalando em chamas e o caminhar suave do Anhangá em direção ao vaso de Jacarandá. O grande veado entrou nas chamas, e pela primeira vez em vários dias Jaboatão latiu, alto e grave como quem dá uma ordem e, em seguida, entrou no fogo atrás do grande veado branco. Mas não demoraram muito para sair de lá, com a imagem pálida e reluzente de Piatã agarrada aos chifres do Anhangá e o sempre leal Jaboatão do outro lado. O homem olhou cada um de seus descendentes e sem dizer nada, caminhou ao lado do Anhangá com Jaboatão trotando feliz em seus calcanhares até que a escuridão da mata consumisse todo o brilho perolado daquela presença espiritual.


Quando o barulho do vento voltou a ser ouvido, todos perceberam que jazia no chão um pedaço de chifre aveludado dourado no lugar onde antes estava o vaso com as cinzas de Piatã e, no caminho até a mata, via-se apenas o rastro das patas de Jaboatão, um cão familiar cuja lealdade rompia o véu dos mundos.


Aquele chifre mais tarde viria a compor uma varinha especial de jacarandá violeta, e ficou claro que o chifre de Anhangá, quando incorporado a uma varinha, deixa-se ser utilizado apenas por alguém que esteja diretamente ligado com a própria força emocional interna, alguém que não tema a morte ou os mistérios da vida, mas que esteja disposto a descobrir e aprender com o que tem além.


Algumas lendas dizem que o primeiro Anhangá era um garoto amaldiçoado e condenado a se transformar nesse veado de chifres dourados pelo resto da vida, mas, a lenda é só uma lenda...

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