Domingues e a capivara do tempo

Houve, na década de 1960, um bruxo chamado Ramiro Domingues de sousa, diferentão, muito além do esperado de um bruxo brasileiro (ainda mais se levarmos em consideração o tanto que os bruxos brasileiros são diferentes). Seu Ramiro, como era conhecido, tinha uma varinha bem peculiar por um motivo interessante: o núcleo de pena de rondolo, mas, se você perguntar para qualquer bruxo brasileiro, ficará claro que essas varinhas não são tão difíceis de se encontrar. Porém, a ave mágica que origiou a pena da varinha de seu Ramiro era de criação. O bicho passou muitos anos com ele, e acabou incorporando a personalidade tempestuosa de seu dono.

As varinhas de rondolo estão diretamente ligadas à essência emocional de seu portador, e isso significa que essas varinhas são capazes de farfalhar ou explodir, dependendo do temperamento ou do estado emocional da pessoa que a porta. Sabendo disso, é possível dizer que varinhas com esse núcleo são temperamentais, ou farfalhantes.

Voltando à nossa história, seu Ramiro tinha o costume de passear na Praça do Relógio, que fica bem perto do ver-o-peso. Ele se sentava nos bancos da praça com os sem-feitiço (pessoas não mágicas) para falar sobre amenidades e discutir contos e causos da vida cotidiana. Dentre seus amigos sem-feitiço, tinha o João das Letras e Raimundo Nonato, também conhecido como seu Dentinho, entretanto, em meio a esses sem-feitiços, encontrava-se um homem esquisito que aparecia vez ou outra para conversar com eles. Seu nome era Teixeira Sebastião, um velhinho bem curvado, de cabelo ralo e perna arrastada que andava sempre com sua bengala escura de imbuia em formato de papagaio, com duas pedrinhas esverdeadas nos olhos.


Ao longo do ano de 1962, esses senhores se reuniram várias vezes, ocasionalmente três vezes por semana. Mas o velho Teixeira Sebastião era figura rara nessas reuniões, e aparecia uma ou outra vez no mês. Quando o ano já havia avançado muito e era Véspera de Natal, houve uma dessas reuniões na Praça do Relógio. Estavam lá Ramiro Domingues, seu Raimundo Dentinho, João das Letras, Juarez Peixeiro e, a peça rara, Teixeira Sebastião. A conversa rendeu bastante, e, quando a tarde findava por volta das 16h, houve uma confusão no ver-o-peso que fez com que os senhores ficassem assustados, todavia, ela fez frente a um outro momento. O relógio badalou estridentemente, viu-se uma luz verde e um fumacê dos infernos ao redor deles. Em meio a tosses e espirros, surgiu uma capivara no chão, grande e alaranjada, com manchas verdes no pelo da fumaça esverdeada. Começou uma chuva quente e os senhores se dispersaram. Foi-se embora Dentinho, João, Juarez e seu Teixeira, mas nem sinal de Ramiro Domingues, o único outro membro daquele grupo era a capivara que veio com a chuva...

Alguns anos se passaram, houve uma nova reunião naquela praça, e já era por volta dos anos de 1975. Alguns dos senhores já não estavam mais entre nós, mas a capivara estava lá, por volta das 16h, e a chuva também apareceu. E aqui preciso que vocês entendam que o senhor Teixeira Sebastião era bruxo, assim como o senhor Ramiro Domingues, que foi transformado em capivara, fazendo com que sua varinha de rondolo fosse incorporada ao seu novo corpo, e, todas as vezes em que a tal capivara aparecia, chovia. E dizem que isso acontece até hoje, em Belém, por volta das 16h, todos os dias, uma chuva inesperada e morna toma os céus e ninguém sabe que isso tudo é por conta de seu Domingues, que foi transformado na capirava do tempo.


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