As batalhas de Akin e a forja de Ogum

Vários povos foram arrancados de suas terras e seus lares, foram puxados dos braços de suas mães. Rainhas, reis, príncipes e princesas tiveram sua existência e esplendor apagados da terra em nome da ganância e da maldade de homens brancos, seres pálidos sem alma.


É fácil retirar um povo de seu lar, mas ninguém jamais conseguirá remover o lar da alma desse povo.



No ano de 1541 Akin, enfraquecido e quase cego pelos meses a fio sem ver a luz, chegou ao litoral pernambucano, trazendo consigo apenas uma fivela de ferro presa ao cinto de corda e sua profunda fé inabalável nas forças antigas dos deuses de sua terra. Cinco anos após chegar as terras pernambucanas, Akin já havia reunido força e formado um grupo de escravos indignados com sua situação no cativeiro da casa da família Barthel.


Os Barthel eram bruxos colonizadores que vieram em busca de maior liberdade para executar seus feitos mágicos sem o perigo de serem caçados e jogados ao fogo ou enforcados em forcas de pau ferro. Não eram o pior tipo de família colonizadora, mas eram, ainda assim, seres pálidos sem alma.


Akin e Mandisa, sua esposa e filha de príncipes, haviam dado início a uma bela família, mesmo em meio a tanta dor e sofrimento, três crianças puramente mágicas, possuidoras dos encantos ancestrais de sua terra mãe, seus nomes eram Ras, Masi e Niara. Desde o nascimento das crianças, a vontade de causar uma grande confusão e fugir encheu ainda mais o peito de Akin e de seus leais amigos. Akin tornara-se um tipo de mestre para aqueles que antes não tinham quaisquer perspectivas de liberdade.

A história revela que durante os primeiros séculos, o povo africano mágico não utilizou utensílios para executar seus rituais, a arte mágica de seus bruxos era revelada através de belas músicas retiradas de instrumentos feitos com elementos de animais mágicos sagrados, como partes de pele, ossos e chifres. A partir de algum ponto não verificável da história desses povos, alguns guerreiros passaram a encantar o metal da ponta de suas lanças, oque os ajudava a executar seus feitos mágicos com precisão, criando a fama de que esses povos eram indestrutíveis.


Akin descendia diretamente desse povo e conservava a crença e o poder dos antigos, na pele possuía a marca da espada, o mesmo símbolo que carregava em sua fivela de ferro enfeitiçado.

Mas a maldade de seus raptores não tinha fim, no entardecer de uma quinta-feira, o filho mais velho de seu senhor Barthel foi as celas baixas de paredes ásperas buscando alguma coisa com seus olhos flamejando perversidade, o olhar de porco faminto recaiu sobre a sua filha Niara, ele ordenou que um de seus capatazes carregasse a menina dali e a levasse para a casa grande.


Eu sou um contador de histórias e gostaria de dizer que Niara ficaria bem, mas infelizmente meu compromisso com a verdade me impede de negar os fatos, Niara seria levada a força da casa grande para o recém inaugurado porto de Santos, muito longe de seus pais e seus irmão, para servir a outra família, onde seria maltratada e abusada... Isso aconteceria caso Akin não tivesse tomado as atitudes a seguir:


A família de Niara estava acorrentada pelos tornozelos, junto de outros 63 homens, mulheres e crianças, Akin cantava uma música baixa e poderosa que contagiou seus companheiros e amigos e juntos entoaram um canto rouco indecifrável que mais parecia o rugido de uma ventania ou o arder de ferro em brasa numa forja de metais, e as correntes brilharam, estremeceram e se partiram, as vozes ecoaram pelas terras em volta e ressoaram na superfície da água dos rios.




Akin segurou firme a fivela de ferro feita na forja de Ogum e a beijou com os olhos incandescentes, a fivela acendeu um brilho azul e branco capaz de cegar os algozes que nunca mais foram vistos, bem como a casa dos Barthel que ardeu em fogo azul.


O guerreiro libertou seu povo, mas não considerou aquilo uma vitória, pois sabia que se tratava apenas de mais uma porta aberta para grandiosas novas batalhas.





  • Texto escrito com a consultoria de Jefferson Rosa – Ministro Afro Religioso

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